Combustão

Não sei quem és…
porém toco-te
e estremeço…
estremeces-me…
Cubro os teus olhos
com as minhas mãos
e reconheço-te
dos meus sonhos.
És minha.
Escreve-me no corpo
o que tens na alma
que eu
respiro-te
e perco a calma…
Não me acordes,
não me acordes,
nem acordes
que eu quero sempre
sonhar-te!
És essência,
devaneio,
fantasia, 
desvario!
Lume,
Fogo!
E eu
cinzas
depois de ti.

Núcleo

Enquanto falavas
e te rias,
nos intervalos,
eu observava-te
de longe
e sorria por dentro
atento
ao brilho de pérola
do teu olhar…
Encanta-me
esse teu jeito
tão próprio de ser,
essa voz frágil
tingida 
de forte
pelas coisas que dizes.
És forte 
sim, 
segura,
ousada,
porém delicada
quando me olhas…
Implodo
vezes sem conta…
sabes lá…
São 
infinitas estrelas
que chocam
umas contra as outras
à velocidade da luz
dentro de mim….
Provocas-me 
uma espécie de
céu apocalíptico-
“Os deuses estão loucos?!”
Não!
É a quarta lei de Newton 
em acção
que ele 
só não elaborou
porque não chegou a conhecer-te.
Tu és
a força motriz
do meu universo
e tudo o resto
são restos.

111.05€ * ∞

Tu és
Matéria onírica 
De veia (imaginária) 
satírica
Espírito inventivo
E para sempre
Apelativo,
Uma luz
Sobre a luz
Que, com o seu sorriso,
Seduz
E anula
Qualquer resquício de miséria
Presente
Em mim.
Enriqueço 
assim que te vejo
assim que te penso...
Tu és o meu tesouro
De uso pessoal
E intransmissível
(como os passes)
e é, de facto, 
inconcebível
que eu ainda não
to tenha dito!
E nem acredito
Que estou agora
A fazê-lo.
Mas estou.
E já está.

No princípio era

Que estou eu a fazer?
Parece-me que
Em mim veio habitar
Um outro ser.
Tomou-me de assalto
Sem sequer dizer:
“Mãos ao alto!”
Modificou 
Os meus padrões cerebrais
Tomou-me a mão
E fez-me não pensar mais
no fim...
Fez-me esboçar
Um sorriso por dentro
Coisa que, confesso,
Já não me lembrava
A que sabia.
A que sabe?
Sabe a corpo leve,
A temperatura ideal,
A paz espiritual...
Estado sagrado
Redoma indestrutível
Porcelana que nem o fogo mais forte
Poderá consumir.
Sei o que digo
mas...
Ao mesmo tempo, não sei...
Vou fazer uma nova lei:
Alínea primeira:
Tudo fazer para que fiques
Em mim.
Sei, 
Que se for assim, 
Converterei cada pedra do caminho
Numa planta de linho
E, com o tempo,
Acrescentar-lhe-ei
Terminações nervosas
E hipocampo,
Um pouco de sentido de humor
e...voilà!
Que horror...
Terei criado 
Um pré-indivíduo...
Não, obrigado,
Já dizia o ditado:
“Pedra que é pedra, 
deve permanecer pedra”.
Não conhece o adágio?
Que falta de cultura, pois então!
Não sei porquê
Mas sinto
Um ligeiro cheiro a nada-
será prosema?
Que náusea...
Termino, sem dilema.

Ex vano

A inutilidade
De tudo.
Impérios físicos
E mentais...
Tudo isto
É apenas um jogo
Para passar o tempo,
Tempo que nos foi dado
Sem que o tivéssemos pedido.
Somos todos crianças,
Em qualquer idade,
Ora de bibe,
Ora de mini-saia
Ora de gravata 
no parlamento,
brincando,
fazendo de conta...
“Dá-me a minha boneca, 
ou vou dizer à mãe!”
“A minha parte até à meia-noite
ou o mundo ficará a saber...”
Ou! Ou! Ou!
Somos também grandes actores
E actrizes
Porquanto somos todos uns infelizes
Mas temos no rosto e no corpo
A expressão exactamente oposta.
Quem não gosta, 
Enfim,
De viver neste éden, neste jardim
Do faz de conta?