És

Ficas bonita
De costas para o mar
O vento nos cabelos
Louros 
Enrolados
E os teus olhos fechados
Bem contra o sol
Que te bate
Na face.
Amasse 
eu outra
qualquer outra
menos tu...
Duvidarias de mim
Se te dissesse
Que, se nada por ti sentisse, 
Já não te teria
Procurado,
Tocado,
Arrebatado,
Coberto de beijos
Perfeitos
E bem calculados
E nos momentos acertados?
Duvidas?
Não o faço
porque...
Porque te amo demais-
Quem ama como eu amo
Não procura,
Não toca,
Não arrebata,
Não cobre de beijos
E, 
Se o faz,
Fá-lo sempre de forma 
imperfeita,
Desajeitada,
E nunca dentro do tempo...
O mal
É eu te amar tanto...

Fumo

As coisas que tu dizes                                                                       
E a forma como as dizes
Num sussurrar contínuo
Como se as confidenciasses 
ao ouvido atento 
de uma amante
sempre presente.
O jeito como sorris 
No fim 
daquelas frases
que tu pretendes que se entendam
como pura ironia.
As coisas que tu dizes
E a forma como as dizes
Com uma expressão de anjo
A intervalos demoníacos
Com um olhar
De múltiplos subentendidos
Camuflados por uma
cortina de fumo
de fluxo turbulento.
Num gesto lento,
Bebes um gole de café
Pousas a chávena e
Tomas conta da cadeira
Em que te sentas
Como se ela fosse alguém 
a quem
te abandonasses
numa atitude de um prazer imenso
e cúmplice.
As coisas que não dizes
E a forma como as não dizes:
Cabeça baixa, 
Olhar fixo
Num objecto inexistente
Donde lês
Um discurso confuso
Sem que dos teus lábios
Saia o mais ténue som...
Poderias talvez, 
Quem sabe, 
Experimentar deslizar as mãos 
até meio da mesa.
Do outro lado, 
talvez as minhas deslizassem
um quarto dessa distância.
Nesse momento,
Poderias avançar 
mais um palmo em frente
e, eu, um pouco mais,
na tua direcção.
A 15 milímetros,
as tuas mãos das minhas,
mandariam as regras
que olhasses para as minhas órbitas
e eu para as tuas, 
envoltas por pestanas envergonhadas
e,
sem mais demoras,
apenas passadas umas horas:
“Onde vamos almoçar?
Vem-me buscar a casa!
Agora não posso...”
E a cereja no topo do bolo:
Aquele tocar de lábios 
Protocolar,
Impessoal
E objectivo,
Uma espécie de reflexo rotuliano,
Um ritual de “Bom dia!
(Quem era aquele?!”)
sem hipótese de se quedar 
na memória 
de nenhum de nós...
NÃO!
Não sou 
Vulga seguidora
de regras pré-estabelecidas
“em nome de interesses 
que me escapam”
(e citei Antunes).
Estamos a 15 milímetros 
um do outro.
Paramos.
Olho as tuas mãos,
Tu as minhas,
Fitamos os dedos 
um do outro
como se estudássemos
minuciosamente
em que direcção 
deveríamos mover
o bispo.
Neste braço de ferro
De xadrez intelectual
Aplicado à paixão da alma 
A calma
é elemento essencial
mas
impossível de manter-
Então a mesa 
Subitamente voaria
Nada mais à volta existiria
Senão nós
E aí sim...
Ti ni ni ni
Ti ni ni ni
Ti ni ni ni
6 da manhã…
Eu logo vi
Que jamais 
Moverias as mãos
Por sobre a mesa...

Jazz

Tu é um paradoxo brutal!
Tens a doçura do sal, 
O calor de um Magnum
Ultracongelado e,
Para completar o quadro, 
O encanto de um tesouro
Desencantado
De uma praia qualquer...
E agora,
Uma pergunta de revista cor-de-rosa:
Se tu fosses um perfume, 
Qual serias?
Eu diria...
Vanderbilt, de Glória
Mas tu, cáustica como és,
Atirarias de chofre 
Com a palavra chicória,
Assim, a seco,
E, logo em seguida,
com água a ferver
se te perguntassem:
“Uma bebida...?”
Julgas-me alucinado?
Sou,
Sou e se não me doesse
Tanto a cabeça
Faria um esforço suplementar
Para materializar 
A tua pessoa.
É que eu sei,
Como toda a gente sabe,
Que,
Se me concentrar, 
Consigo.

Aftartodocético

Não tenho hora
nem local preferencial
para te ver.
Até te vejo
Onde não estás,
Vê lá tu!
E já senti
O teu perfume
Em situações anormais
E já até ouvi 
a tua voz
algo difusa nos telejornais.
Por Deus, 
Que queres mais?!
Estás em todo o lado, 
És tudo, 
Eis tudo!
Ficas aí,
calado e mudo
mas eu leio-te as ideias.
Tens várias cabeças 
Cheias de eus contraditórios
E por vezes dizes
Que os sentimentos
São meros acessórios.
Outras, porém, 
Dizes:
“Coitado de quem 
nunca amou”.
Eu sou
O teu analista
E um dia serei
Monge budista
E viverei numa ermida 
Onde meditarei
Sobre a tua personalidade
E sobre ela edificarei
A minha tese de doutoramento.
Usarei como argumento
para justificar a tua atitude
que o teu mal é exactamente igual
ao de Pessoa
que muitos dizem
ter escrito genialidades
à toa...
Assim, 
serás famoso,
Um místico,
Um mito,
Com direito
A feriado nacional 
que as gerações vindouras 
para sempre recordarão
como “o dia do tal”.
Aí tens
A tua imortalidade.

Onirismo axiomático

Escrevo demais?                                                         
Hum...
A culpa é tua.
É sim!
É!
Que feitio o teu
De fazer do meu 
Sim
Um não!
Aposto que se te dissesse
Uma qualquer verdade universal
Subvertê-la-ias
E dirias:
“Mas afinal!”
Como se a humanidade
Estivesse toda errada
E tu a veritas
Viesses repor!
Num breve torpor
Acredito em tudo o que dizes:
“O Sol é azul 
e nem sequer 
se chama Sol;
chama-se Lá
por estar demasiado
longe da Terra.
(E, já agora, quem disse que há guerra?!)
As notas musicais
Não são mais 
do que números disfarçados
e foi Einstein 
quem inventou os fados;
A Amália, essa,
Era, na verdade, cientista
(disse-mo há dias
o meu dentista
enquanto me escavacava o siso).
Preciso...
Preciso de mais um cigarro
Enquanto te narro
O resto das verdades...
Olha lá, 
Não tens saudades
Do tempo que nunca viveste?”
Acordo.
Outra vez o mesmo sonho.
Abro a janela,
Vejo a última estrela
E surge depois o Sol
Num tom cianótico:
Que mundo caótico!
Afinal, Lá, era verdade...

Alter ego

Talvez se...
Se eu nunca te tivesse encontrado
Se me tivesses passado ao lado
Se eu não te soubesse
Se eu jamais te tivesse sonhado
Se eu fosse outra
Mais que tudo, 
Se eu fosse outra...

Lemniscata

Num certo espaço 
num dado tempo
de um determinado ângulo
existe a minha ideia de ti 
que é doce e compensa o açúcar 
que não ponho no chá
e compensa os cheiros 
que por vezes não sinto
e ultrapassa todos os filmes 
que eu já vi,
todas as texturas que já senti
todos os cicios segredados
ao ouvido...
És ponto,
nunca parágrafo,
num referencial cartesiano
infinitesimal,
onde convergem
mil coordenadas,
de sentidos que me despertas...
Confundes-me:
Ouço as cores todas ao contrário
Toco nas palavras que dizes
sem som...
Nada é o que parece
mas isso só acontece
na minha ideia de ti.

Infusão

Desisto.
Porque não me deixas desistir?
Ocupas-me a mente...
Existo?
Abandona-me antes que eu
deixe de ser-me...
Sou, cada dia que passa,
um pouco mais de ti
no jeito de andar
no jeito de dizer
no jeito de sentir
Incorporo-te
como quem bebe
avidamente
a última garrafa
do último líquido 
à face da Terra.
És veneno,
doce cicuta
por mim cultivada,
matas-me lentamente
mas é quando me matas
que me sinto mais viva.