As coisas que tu dizes
E a forma como as dizes
Num sussurrar contínuo
Como se as confidenciasses
ao ouvido atento
de uma amante
sempre presente.
O jeito como sorris
No fim
daquelas frases
que tu pretendes que se entendam
como pura ironia.
As coisas que tu dizes
E a forma como as dizes
Com uma expressão de anjo
A intervalos demoníacos
Com um olhar
De múltiplos subentendidos
Camuflados por uma
cortina de fumo
de fluxo turbulento.
Num gesto lento,
Bebes um gole de café
Pousas a chávena e
Tomas conta da cadeira
Em que te sentas
Como se ela fosse alguém
a quem
te abandonasses
numa atitude de um prazer imenso
e cúmplice.
As coisas que não dizes
E a forma como as não dizes:
Cabeça baixa,
Olhar fixo
Num objecto inexistente
Donde lês
Um discurso confuso
Sem que dos teus lábios
Saia o mais ténue som...
Poderias talvez,
Quem sabe,
Experimentar deslizar as mãos
até meio da mesa.
Do outro lado,
talvez as minhas deslizassem
um quarto dessa distância.
Nesse momento,
Poderias avançar
mais um palmo em frente
e, eu, um pouco mais,
na tua direcção.
A 15 milímetros,
as tuas mãos das minhas,
mandariam as regras
que olhasses para as minhas órbitas
e eu para as tuas,
envoltas por pestanas envergonhadas
e,
sem mais demoras,
apenas passadas umas horas:
“Onde vamos almoçar?
Vem-me buscar a casa!
Agora não posso...”
E a cereja no topo do bolo:
Aquele tocar de lábios
Protocolar,
Impessoal
E objectivo,
Uma espécie de reflexo rotuliano,
Um ritual de “Bom dia!
(Quem era aquele?!”)
sem hipótese de se quedar
na memória
de nenhum de nós...
NÃO!
Não sou
Vulga seguidora
de regras pré-estabelecidas
“em nome de interesses
que me escapam”
(e citei Antunes).
Estamos a 15 milímetros
um do outro.
Paramos.
Olho as tuas mãos,
Tu as minhas,
Fitamos os dedos
um do outro
como se estudássemos
minuciosamente
em que direcção
deveríamos mover
o bispo.
Neste braço de ferro
De xadrez intelectual
Aplicado à paixão da alma
A calma
é elemento essencial
mas
impossível de manter-
Então a mesa
Subitamente voaria
Nada mais à volta existiria
Senão nós
E aí sim...
Ti ni ni ni
Ti ni ni ni
Ti ni ni ni
6 da manhã…
Eu logo vi
Que jamais
Moverias as mãos
Por sobre a mesa...