Ou tornar-me etéreo, Que o corpo físico pesa, Tal e qual ósmio em densidade, Tal e qual crude nas asas das aves, Tal e qual a gravidade, Tal e qual a mão que te agarra o braço, Tal e qual o escuro da noite silenciosa, Tal e qual a palavra taciturna, Tal e qual o olhar artificioso, Tal e qual.
Author: monizes
Madrugadas
Não sei bem o que se passa- Basta-me pensar em ti E as palavras saem E caem Na folha Como a chuva na terra. Agora não rimou... Que importa? Estou Contente na mesma! Hei-de escrever-te de poemas uma resma! Que te parece? Será a minha nova prece Ao deitar e acordar. Crês que seja pecado? Pecado é ter O espírito congelado E nada fazer Para inverter o processo. Já sei! Vou fazer e dedicar-te Um extraordinário congresso Destinado a exaltar As tuas qualidades especiais! Eu e as minhas ideias fenomenais... Ou talvez o ideal fosse Pintar o teu retrato Que doooceee.... O problema é Que não tenho meios para executar Nem uma coisa, nem outra. Sou pobre E a preguiça e o tédio Surgem-me num constante assédio Ao qual cedo Invariavelmente. É, contudo, ponto assente que não sei bem o que se passa e vou-me por isso embora antes que faça meio-dia (dá nisto pensar em ti logo de manhã).
Apoptose
A morte chama-me Na lentidão dos dias, No ar inquinado E irrespirável, Na sombra Das noites brancas, No silêncio Da cidade No meu silêncio... A morte Deseja-me Nas horas vagas, Nos pensamentos Repetidos, Nas memórias Absurdas Do teu eu... A morte Quer-me No sorriso Sem júbilo, Nas palavras Vazias, No sim Que é não No grito sem voz... A morte Leva-me A cada olhar vago, Cada gesto indolente, A cada suspiro denso, A cada passo não dado- A morte chama por mim....
Psicofoto
Este entretanto No entretanto da vida, É um poço escuro E anaeróbio... Anaeróbio Não é da poesia, Mas a minha poesia É a minha realidade. Este entretanto É o meu purgatório Pessoal- Pesa-me como A pedra de Sísifo, Mil vezes O infinito. Guilhotina! Guilhotinaaaaaaa! Guilhotina... Guilhotina?
Gallus sp.
Fazer Da telenovela do meio-dia A tua melhor amiga. Fritar uma galinha Enquanto assistes Ao drama Da personagem principal. Querer e não querer ser uma Marta, Ah, querer e não querer esmagar um Rodrigo... Fritar uma galinha E acompanhar com arroz.
A casa
As flores não regressam mais Senão na Primavera que vem Orquídeas Azáleas Malvas Antúrios Açucenas E coroas de Henrique Que anunciam Uma E outra vez “Esta é a casa”.
Anedonia
Flutuo Num limbo Cinzento Sem hora nem dia Sem fim, Nem começo. O ar rarefeito, À altitude Da desesperança, Inebria-me E consome-me Lenta e inexoravelmente A cada suspiro Encoberto. Os olhos fixos Num horizonte Intangível E ao meu redor A morte Por companhia.
-9.81
Estás a ver o género Agapanthus? Encantador, No seu jeito, Mas não. Conheces a espécie Brisa maxima? Não é que tenha Particular graça, por isso Também não. Pouco perdes em não conhecê-las Mas eu, ao vê-las, lembro-me sempre de ti. Não que sejas uma inflorescência Ou que ondules Sob o sopro de inocência De um vento Que vem de norte. É apenas porque, Por mais que eu procure Ser forte, Basta eu respirar Para sentir-te. Tu estás no ar, Entendes? Tu és parte integrante Dos átomos de nitrogénio Que inalo. Só não te falo Por medo de perder-te... Ter-te Seria inventar Novas palavras, Novos sentidos Fazer centenas de desmentidos: “Afinal, não era assim...” Tu e eu Pintaríamos o céu De carmim Mandaríamos A gravidade para a lua E o que agora está preso Ao chão duro Levitaria, como num truque de magia atingindo o alto e saltando o muro irreal. Bem ou mal Só se vive uma vez Por isso, de cabeça nessa nova Terra Vem, e esgotemos a vida...
Sou-te
E foi quando me disseste: “Não te sabia tão dada à filosofia”. E eu disse-te: “Pois, ninguém sabe...”. E o teu olhar Nesse instante Pareceu-me cúmplice De uma verdade oculta Que só eu e tu conhecíamos. Ou talvez fosse apenas Uma vaga impressão Tecida pela imaginação Talvez doentia De quem outrora sentia Que viver A pena valia. E depois Nunca cheguei a perceber Se era certa ou não A minha hipótese. Note-se Que tu Não és fácil de compreender: Escondes-te Atrás desse olhar Que lanças para a mesa Ao acaso a ver se acertas num qualquer alvo e... que mais há a dizer? Vou experimentar Berrar-te um impropério A ver se tu, Cleópatra, Cais E, contigo, O teu império! Gostaria de ver-te, Uma vez que fosse, Com uma expressão de dúvida e de medo, mandar-te para o degredo e depois salvar-te mas somente sob a promessa de que me deixarias arrancar-te a alma completa e guardá-la na rua deserta que é agora a minha.
Enlightenment
Condenados que são
Os que com clareza
Vislumbram
O ocaso
Em cada amanhecer.
Iluminados que são...