Sou-te

E foi quando me disseste:
“Não te sabia 
tão dada à filosofia”.
E eu disse-te:
“Pois, ninguém sabe...”.
E o teu olhar
Nesse instante
Pareceu-me cúmplice
De uma verdade oculta
Que só eu e tu conhecíamos.
Ou talvez fosse apenas
Uma vaga impressão
Tecida pela imaginação
Talvez doentia
De quem outrora sentia
Que viver
A pena valia.
E depois
Nunca cheguei a perceber
Se era certa ou não
A minha hipótese.
Note-se
Que tu
Não és fácil de compreender:
Escondes-te
Atrás desse olhar
Que lanças para a mesa
Ao acaso
a ver se acertas 
num qualquer alvo
e...
que mais há a dizer?
Vou experimentar
Berrar-te um impropério
A ver se tu, Cleópatra,
Cais
E, contigo,
O teu império!
Gostaria de ver-te,
Uma vez que fosse, 
Com uma expressão 
de dúvida e de medo,
mandar-te para o degredo
e depois salvar-te
mas somente sob a promessa
de que me deixarias
arrancar-te 
a alma completa
e guardá-la na rua deserta
que é agora a minha.

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